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Pe. Anderson: Vocação madura e 5 anos de Ordenação Sacerdotal

Postado em 2 de agosto de 2021 por

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Já falamos por aqui em outra reportagem sobre a mudança de rumo com uma idade mais avançada, quando em certa altura da vida, resolvemos tentar algo novo.

Temos uma nova história para contar. Aos 40 anos de idade, o funcionário público Anderson Pereira dos Santos se questionava se teria feito as escolhas certas em sua vida. Com vinte anos de trabalho na Prefeitura de Braganey, largou tudo e foi para um seminário.

A história do Padre Anderson começa nesse município do oeste do Paraná, em uma família humilde, com seus pais e quatro irmãos, que por muito tempo trabalharam como boias-frias. Naquela época, o menino já se interessava pelos costumes católicos. “Nós morávamos em uma fazenda de café, com bastante colonos e na época de quaresma, todos se reuniam para celebrar a via sacra e as crianças ficavam do lado de fora brincando, mas os cânticos e a oração do terço já me chamava a atenção. Quando eu tinha 8 anos, fomos morar na cidade e sempre estive presente na vida religiosa da família”, conta.

Quando estudante, participava do Grupo de Jovens da cidade, Grupo de Oração e acompanhava retiros em outras localidades. Aos 25, foi chamado pelo padre da sua paróquia para atuar como Ministro da Eucaristia.

“Eu pensava na juventude em entrar para o seminário, mas naquela época, a família tinha que pagar 60% do custo, então eu ficava com medo de dizer aos meus pais que queria isso, porque não tínhamos condições financeiras. Eu trabalhava durante o dia com eles nas fazendas e a noite estudava, concluí o ensino médio”.

Aos 20 anos, Anderson passou no concurso da Prefeitura e foi trabalhar como auxiliar administrativo. “Depois cursei o Magistério em Ciências em Jandaia do Sul, mas não atuei como professor, pois como era solteiro, a renda do trabalho na Prefeitura era o suficiente”.

Ao longo de sua trajetória na vida religiosa da cidade, Anderson era incentivado a iniciar seus estudos para a vida sacerdotal, tanto pelo padre da paróquia quanto por outras pessoas da comunidade. “Havia o incentivo, sim. Aos 40, refletia muito sobre a minha vida. Não fui ser padre, que era algo que eu queria, não havia constituído família, então me questionava muito a essa altura. Dom Mauro já tinha aceitado outros seminaristas que já haviam cursado uma faculdade. Aí o padre Odair falou comigo”. A partir disso, foi mais algum tempo até Anderson decidir-se pelo seminário. “Ainda me segurei por um ano, até decidir que estava na hora, que eu deveria experimentar. Marcamos uma reunião com o bispo, contei sobre a minha caminhada e ele me aceitou no seminário. Isso aconteceu em 2011, aos 41 anos. Fiz um ano de propedêutico e 4 anos de teologia e mais seis meses até a ordenação”, diz ele.

A ordenação aconteceu no dia 09 de julho de 2016, no Santuário Nossa Senhora da Salete, em Braganey. O lema sacerdotal escolhido pelo novo padre é um trecho da passagem da Bíblia Sagrada de Jeremias 1:9, “Em tua boca, ponho minhas palavras”.

Pe. Anderson explica sua escolha. “Deus que sempre está conosco. Para o profeta Jeremias, que também se sentia muito jovem, incapacitado para a missão, Ele disse, ‘Não tenha medo, em tua boca ponho minhas palavras’. Esse é meu lema sacerdotal, a minha confiança em Deus, é Ele que direciona, Ele que conduz. Me sinto confortado, sei que não estou sozinho”.

A designação para a Paróquia Nossa Senhora Aparecida, em Boa Vista, aconteceu seis meses após a ordenação, em janeiro de 2017. Antes, Pe. Anderson ficou um mês em Braganey como substituto e depois passou a ser vigário paroquial em Corbélia, por cinco meses. O pároco assumiu o lugar do Padre Jenivaldo, transferido para uma paróquia de Cascavel.

Perguntado sobre a reação da comunidade braganense e da família sobre sua decisão, Pe. Anderson conta que não houve surpresa pois todos já observavam que essa seria sua vocação. “Em mim veio uma insegurança porque eu tinha 20 anos de concurso e uma estabilidade profissional. Havia a preocupação se daria certo, mas tive muito apoio da família. E eles ficaram felizes porque já tinha uma caminhada de Igreja muito presente. Eu já tinha 41 anos, então não pedi permissão, comuniquei e eles ficaram bem. Para a comunidade não foi uma surpresa, pois todos viam que meu envolvimento na Igreja era grande. Com a graça de Deus, tive coragem, veio o sim e hoje estou aqui, com essa missão”.

Já no seminário, o dia a dia não foi difícil, apesar do desafio da convivência com seminaristas bem mais jovens. “Achei que seria mais difícil, pelo distanciamento de idade entre nós, os assuntos não eram os mesmos e eu tinha idade para ser pai deles. Mas com a graça de Deus, não tive grandes problemas. Sofri mesmo com a falta da família, especialmente nos primeiros meses”.

Para o sacerdote, a vocação madura trouxe a certeza de sua escolha e um entendimento de que Deus o chamou na hora certa. “Questionava com Deus, no seminário, porque não me encorajou antes se era isso que Ele queria de mim. Mas entendi que era aquele o meu momento. E por outro lado, foi bom pra mim, pois pude ficar bastante tempo com a minha família, trabalhei com eles, ajudei. Ainda morava com meus pais quando saí para o seminário, então isso me conforta e me alegra, pois eu via no seminário jovens que saíram da família muito cedo. E a vocação madura também te dá a certeza do que você quer, aí é realmente entregar-se para a formação e colher os frutos”, finaliza.

Vocação madura é o termo utilizado na Igreja Católica para se referir às pessoas que procuram o presbiterado quando já possuem mais idade, experiências de vida e independência para escolhas.

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